Realidade
Por Lucas Caixeta Nogueira - 3º Sigma

Acordo de manhã, tomo um banho, sirvo-me da refeição matinal, escovo os dentes e vou para a escola. Tenho um dia de aulas como qualquer outro, com novas coisas para se aprender e estudar. Volto para casa, almoço, descanso e estudo. Alguma atividade à tarde dependendo do dia, e depois mais algum descanso até a hora de dormir. O cotidiano pode parecer muito comum e até chato. A gente é levado a pensar que não existe mais nada além disso, que todos vivem essa mesmice, que o mundo é simples assim. Há pessoas que não pensam assim, entretanto. Existem aqueles que levam a importância de cada dia ao extremo, vivem o cotidiano como se não fosse sempre a mesma coisa. E para elas não é mesmo. A batalha de cada dia desses indivíduos é árdua, a cada amanhecer uma esperança, a cada anoitecer uma decepção ou uma vitória. Esses seres humanos são escondidos da realidade urbana de Uberlândia. Afinal, essa é a tendência de todas as cidades médias, omiti-los para não repassar qualquer má imagem do município. E não apenas em Uberlândia: é possível encontrar esses batalhadores em qualquer cidade. Pessoas que lutam contra grandes dificuldades com fé e esperança, apoios sólidos para que continuem a viver, para que continuem a batalhar e não desistam.
O objetivo do projeto de Ciência e Cidadania da professora Milena é trazer seus alunos ao contato com essa dura realidade. Há anos que ela leva estudantes do colégio Nacional ao Morumbi, bairro que abriga um complexo de barracos e casas em sério déficit habitacional básico para que eles conheçam de perto a realidade de quem sofre de falta de infraestrutura e de condições mínimas de vida, de quem sofre da moléstia e da fome. A gente que mora no município não enxerga o que está na periferia, não imagina o que está na margem urbana, só vê esse lado pela televisão. Dessa forma, o choque é grande. Estradas de terra que inundam com a chuva, esgoto a céu aberto, famílias numerosas, mães precoces, barracos improvisados, "gatos" que trazem energia elétrica, crianças brincando descalças, necessidade. É difícil imaginar como se pode viver nessa situação, mas os moradores lutam diariamente para garantir a sobrevivência sob essas dificuldades. Conversando com eles, percebe-se que têm forte religião, forte fé em Deus e na vida, grande esperança e muita força de vontade. Essas virtudes estão presentes nos nomes das localidades na área: bairro Prosperidade, avenida Solidariedade, rua da Harmonia,da Esperança, Realização e Renascer. Eles são a verdadeira imagem do brasileiro que nunca desiste. Essa determinação é extraordinária.
Particularmente, entrei em contato com essa realidade em 2007. Há três anos seguidos, portanto, visito periodicamente o bairro. Na primeira vez, como qualquer outro, fui com certo preconceito e de forma alienada. No entanto, na medida em que andava por aquelas ruas de terra, sentia na alma o sofrimento daquelas pessoas e me solidarizava. O choque foi grande, mas logo eu senti a esperançosa felicidade que emanava dos barracos, a incrível alegria que elas teimam em ter. No momento seguinte brincava com as crianças de pega pega, futebol, perguntava a seus pais sobre a vida que levavam e compartilhava do pesaroso silêncio após cada resposta. Nessa última visita até ganhei um desenho de Lidiane, que aparenta ter sete anos de idade. Desde a primeira vez, não deixei de ir todo ano. Ia sozinho até, participei de lindos eventos da comunidade, conheci valorosas pessoas. Doei o que pude: todos os meus brinquedos da infância, meu videogame, consertei um esquecido violão em um dos barracos para repassar para as aulas de musicalização da já transformada ONG Terra Fértil. Tentei como pude deixar um pouco de mim para a comunidade. Espero que o tenha conseguido.
Quanto ao projeto, ajudar não é o principal objetivo, apesar das110 cestas básicas e das 30 ou mais caixas de leite, além de brinquedos e roupas que a gente doou. A principal meta dessa iniciativa é possibilitar o contato entre alunos do Nacional e pessoas menos favorecidas. É levar ao conhecimento dos nossos estudantes a realidade de quem passa fome e vive sob péssimas condições. Quem estuda no Naça futuramente será um bem colocado empregado do mercado de trabalho. O futuro profissional deve conhecer o mundo que o cerca e que abrange coisas muito maiores e mais graves do que o trabalho cotidiano e a própria família. Sabendo do sofrimento dos que tentam viver à margem da sociedade, esse profissional pode agir contra o aumento das desigualdades sociais a partir de atividades voluntárias, seja ajudando quem precisa ou mesmo contratando alguém que pode parecer menos preparado para o emprego mas que passa por maiores dificuldades. A importância desse projeto está no choque do contato entre o aluno e a dura realidade dos menos favorecidos. É esse choque que abalará sua alma e será decisivo para a sua postura no presente e no futuro. É ele que definirá ou não uma mudança em sua vida.
Levando os participantes do projeto ao bairro Morumbi, a gente não espera que todos os alunos realmente se sensibilizem. A gente não espera que todos tenham o coração tocado e mudem suas vidas. Muitos voltam da comunidade como foram, sem nenhuma alteração ou mudança de atitude. No entanto, uma boa parte de fato se sensibiliza e busca agir de forma diferente. Quando vou para o bairro com o projeto, reparo nos olhares dos que vão. Alguns lá chegam e saem com os mesmos olhos que se recusam a enxergar a realidade. No entanto, percebo em muitos um novo olhar, um olhar diferente daquele neutro que lançamos cotidianamente. Nos olhos de muitos enxergo a emoção, a preocupação com os moradores, a ânsia por fazer algo por eles. É por esse sentimento que a gente luta. É por esses alunos que projeto persiste. A gente deposita a esperança na comunidade e nesses nossos alunos. Quanto mais destes tivermos, maior será nossa fé em um mundo melhor. Afinal, depende da gente a transformação dessa realidade. A gente tem que assumir a responsabilidade de mudar a omitida e ao mesmo tempo clara realidade de quem sofre. Que esses nossos irmãos e filhos de Deus possam mudar sua realidade. Que a pobreza se torne riqueza, que a esperança se concretize, que a dor e o sofrimento se tornem amor.
|